Dando continuidade a série: Como tomar decisões. Vou me concentrar agora no item Modelos do mapa mental e como tema inicial a Linguagem.
Modelos, para esse texto, significa: referências, princípios, visões, explicações mais detalhadas tiradas da ciência (exatas, biomédicas ou humanas) ou da filosofia que possam auxiliar na discursão que estou propondo de como tomar decisões de forma mais assertiva e flexível.
Como a nossa interação com o mundo, seja por motivos de: entretenimento, profissional, político, fé, entre outros, se dá devido a nossa capacidade de nos relacionarmos através da linguagem, resolvi começar essa seção de modelos explorando essa capacidade universal de uma forma mais detalhada.
Antes de chegar nas definições, vou mostrar de forma simplificada as concepções de linguagem:
- Linguagem como expressão do pensamento: aqui a linguagem se limita a ser uma tradução do pensamento; a enunciação é monológica e individual. O pensamento é o mais importante nessa visão. Essa visão é herdada da filosofia dualista de Platão que separava o mundo em 2 partes: o mundo sensível, material e físico, reconhecido como ilusão e de menor importância e o mundo cognoscível, mental, espiritual e metafísico; esse sim era considerado mais importante e visto como um caminho para essência real das coisas e/ou para plenitude espiritual. Esse modo dualista de ver o mundo teve seu auge filosófico com a teoria cartesiana elaborada por René Descartes, que é autor da célebre frase: Penso, logo existo. Fica claro nessa visão que a linguagem é vista como o resultado de um pensamento bem elaborado.
- Linguagem como meio de comunicação: essa 2ª visão é resultado de uma teoria própria da língua, que permitiu que ela fosse estudada independente da filosofia, teoria essa elaborada por Saussure, que ficou conhecida como estruturalismo. Essa visão não considera o contexto social. Existe uma divisão da linguagem em língua e fala. A língua é o mais importante, é vista como um código e possui caráter social, no sentido de que todos que se comunicam usam o mesmo conjunto de códigos. A fala aqui é uma mera manifestação desse sistema de códigos. Apesar de seu caráter científico, fica clara a visão dualista entre língua e fala e a ênfase na língua como o mais importante. Por isso Marcos Bagno na Gramática Pedagógica do Português Brasileiro, chama essa visão de platonismo estruturalista, pois persiste a influência da visão dualista de Platão.
- Linguagem como forma ou processo de interação verbal: essa visão surgiu a partir do russo Mikhail Bakhtin. Essa perspectiva acaba com o dualismo e propõe uma visão monista da linguagem, na qual, não existe a dicotomia língua e fala. Aqui o sistema e o uso, a gramática e o discurso, o linguístico e o social compõem um todo indissociável. Tão indissociável que uma vez separados a língua deixa de ser língua, da mesma forma que, quando separa o oxigênio do hidrogênio na água, o resultado deixa de ser água. O essencial nessa visão é a interação verbal. Essa também é uma visão dialógica da linguagem, na qual toda enunciação é um diálogo, todo texto é uma conversa ou uma resposta ou uma pergunta ou uma interação com outro texto. Quero lembrar também que essa visão entende que a linguagem é uma expressão do pensamento, aceita que também é um meio de comunicação, mas deixa claro que a linguagem é também algo mais complexo que só pode ser compreendido em sua essência se for analisada como um processo de interação verbal e geração de sentido, ou seja, observá-la em pleno funcionamento.
A importância de compreender essas concepções citadas anteriormente é que nossas ações e decisões são tomadas de acordo com a nossa concepção de linguagem, ou seja, de acordo com o nosso limite de visão da linguagem. Se eu só conheço a primeira visão da linguagem como expressão do pensamento, em um ambiente de sala de aula, vou tender a não dar muita importância à interação com os alunos e ao feedback que as discursões podem me dar para me aprimorar como professor. Nesse caso, acabo optando pela decisão de perpetuar a fórmula professor fala, aluno escuta, fórmula essa que um país como a Finlândia, que se destaca na área de educação, já abandou há décadas. Na Finlândia, as aulas seguem o princípio de menos é mais. O professor explana o conteúdo por cerca de 40% do tempo, enquanto a interação com a turma discutindo o assunto ocupa cerca de 60% do tempo. Cada aula é observada por uma equipe de professores no fim da sala, no instante que a aula finaliza esse professor recebe dicas, de professores mais experientes, de como aprimorar a aula. Isso gera um ciclo continuo de interação, com objetivo no aprendizado. Essa é uma visão que reconhece que a linguagem é expressão do pensamento e meio de comunicação, mas não é só isso, reconhece que também é uma forma de interação verbal e que essa interação é o ponto essencial nessa relação aluno professor, já que possibilita a formação de pessoas proativas, com plena capacidade de ação no desenvolvimento de nossa sociedade.
Outro exemplo de pôr em prática essa terceira concepção da linguagem, é o Khan Academy, uma iniciativa de Salman Khan, de criar vídeos para ensinar matemática, se expandiu para diversas áreas e pode ser acessado gratuitamente por qualquer pessoa através da Internet. Boa parte desses vídeos foram traduzidos para o português, pela Fundação Lemann e estão sendo usados em escolas da rede pública em São Paulo. A utilização desses vídeos inverte a lógica da sala de aula citada no parágrafo anterior. Os alunos assistem aos vídeos em casa e praticam os exercícios na sala de aula com o professor, aumentando o tempo de interação aluno professor.
Vou mostrar agora algumas definições inspiradas pela terceira concepção de linguagem:
- Linguagem é a capacidade de gerar sentido. A manifestação da linguagem, ou seja, a geração de sentido, se dá de forma verbal e não verbal. No instante do enunciado, esse componente de sentido externado passa a pertencer a um lugar finito de manifestação de sentido que é chamado de texto.
- Texto é o lugar em que se materializa o sentido, que é manifestado graças a linguagem, ou seja à capacidade de gerar sentido, de forma verbal ou não verbal. A partir da materialização do sentido em forma de texto, esse sentido pode ser lido e interpretado por outra pessoa.
- Essa manifestação de sentido da linguagem se estrutura segundo um determinado conjunto de regras. Esse conjunto de regras é chamado de língua. A comunicação verbal depende do entendimento dessas regras pelos interlocutores.
Chegando finalmente na língua, vamos falar um pouco da gramática, cujo foco é justamente a estruturação da língua, esse conjunto de regras que varia no decorrer dos anos, sofrendo suas mudanças devido às interações culturais.
Existem vários tipos de gramáticas, destaco para esse texto 3 tipos principais, baseados nas concepções de gramáticas segundo Travaglia:
- Gramática Normativa: A primeira gramática foi criada em Alexandrina. Filólogos alexandrinos perceberam que documentos antigos eram diferentes da língua grega cotidiana. Eles viram isso como negativo e criaram um conjunto de normas para resolver. O registro mais antigo de gramática foi a Téchné Grammatiké (Arte da Gramática) elaborada por Dionísio Trácio (170 a 90a.c.) em Alexandrina e nasceu dentro desse contexto e necessidade de criar normas para impedir a mudança da língua que era vista como negativa. Obs.: Essa é a forma de ver a gramática que temos acesso no ensino médio e em provas de vestibular e concurso. É por essa visão, não aberta a mudanças, que temos que aprender regras que nunca ou raramente usamos como, frases na 2ª pessoa: “Vós sois”. Outro caso é o trio: “este, esse, aquele”. Pesquisas no Rio de Janeiro mostraram raros usos da palavra este. As pessoas usam frases como “esse aqui” para substituir o este e “esse aí” que é o significado original do esse. Essas formas em desuso poderiam ser colocadas como um lembrete histórico, para termos noção da evolução da língua; a crítica aqui é a ênfase em algo que não faz parte do nosso cotidiano. Uma tentativa forçada de manter estático, algo que possui natureza dinâmica, devido uma visão distorcida de ver a mudança como algo negativo. Mudança não é negativo, nem positivo, ela é o que é, inevitável e única constante da vida, já dizia Heráclito (535 a 475 a.C.).
- Gramática Descritiva: ela descreve e registra para uma determinada variedade da língua em um dado momento de sua existência as unidades e categorias linguísticas existentes. Ela não tenta valorar o que é importante ou não, só coloca a disposição o que existe naquele momento, incluindo as variações linguísticas, que não são muito bem vindas na abordagem normativa.
- Gramática Internalizada: também conhecida como competência linguística internalizada do falante, é o conjunto de regras que é dominado pelos falantes e que lhes permite o uso normal da língua.
Para finalizar o tópico gramática, Irandé em seu livro Aula de Português: encontro e interação, destaca que a gramática se divide em:
- Regra de Gramática: destinam-se ao uso. Ex: quais as regras para a produção e leitura de um resumo, notícia, resenha, etc.
- Nomenclatura Gramatical: focam na descrição que os elementos da língua possuem.
A crítica ao ensino focado no excesso de nomenclatura gramatical é que não adianta saber os nomes que as conjunções têm e sim saber o sentido que elas expressam. O mais importante é aprender as regras de gramática, pois elas nos capacitam a um uso mais apurado da língua.
O que tirar do que foi falado no contexto de tomada de decisões:
O primeiro ponto é tomar consciência da interação verbal como foco principal desse estudo da linguagem. Isso nos possibilita compreender que o domínio dos diversos gêneros textuais, permite ao cidadão um repertório maior de recursos e habilidades para tomar decisões de forma mais consciente. Ex: Imagine do dia para a noite ter que lidar com questões jurídicas. Os textos jurídicos possuem termos técnicos próprios da área e uma grande quantidade de leis. Fica difícil, ou quase impossível, do dia para a noite, adquirir essa habilidade. Claro que o advogado existe para isso. Mas, o que quero dizer é que, nada impede que cada cidadão procure obter pelo menos uma visão geral desse tipo de gênero textual e dos diversos outros, pois isso o permitirá uma atuação mais ativa e efetiva na resolução de problemas. Por outro lado, lembrando da frase da música “Comida” dos Titãs: “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte.” Significa também que devemos ter contato com os diversos outros gêneros que não seguem a norma culta, já que nesse caso, a norma culta não dá conta da natureza dinâmica, flexível, criativa e poética do ser humano. Nesses outros gêneros os textos devem ser apreciados por sua língua própria, não devem ser comparados com a norma culta. O propósito aqui é explorar e admirar a capacidade do homem de se expressar por meio da linguagem e suas variações. Lembrando que essas variações, não são nem melhores, nem piores que a norma culta, elas são o que são, apenas variações, que é uma característica da língua, que continua em constante mudança, nem para melhor, nem para pior, somente mudança. Apreciar, conhecer, vivenciar esses gêneros que se utilizam da variação linguística é acima de tudo, reconhecer o caráter heterogêneo do ser humano e da sociedade. Para se aprofundar nessa questão da variação linguística consultar Irandé Antunes e Marcos Bagno entre outros autores, conforme referências no final deste texto.
A minha sugestão é que você continue, durante toda a vida, aprendendo e adquirindo novas habilidades linguísticas, por meio dos diversos gêneros textuais.
O segundo ponto que quero colocar é a atitude de dissolver explicações distorcidas da realidade que até hoje estão impregnadas na nossa sociedade. O que me refiro aqui é o dualismo. Essa visão tende a ser pano de fundo para sustentação de diversos tipos de preconceitos ao nosso redor. No filme Lincoln, 2012, dirigido por Steven Spielberg, podemos ver as seguintes dicotomias geradas pelo dualismo instalado na cultura dos EUA da época:
- Branco x Negro – o negro na época era escravo, propriedade privada do branco.
- Homem x Mulher – a mulher não tinha direito a voto nem autonomia na sociedade.
O exemplo acima é a visão de Platão dando suporte para que uma minoria tenha o domínio sobre os demais, justamente porque a visão dualista enaltece o primeiro termo (Branco e Homem) e desvaloriza o segundo (Negro e Mulher).
Em um banheiro de uma faculdade brasileira, eu vi, recentemente, a seguinte frase: “Reservado para professores e funcionários”.
A primeira vista parece uma frase comum, mas analisando um pouco mais, podemos perceber o mesmo dualismo que iniciou com Platão, ainda impregnado, nesse caso, no ambiente acadêmico.
A dicotomia nesse ambiente é Professor x Funcionários. Claro que a frase absorve toda a carga platônica de enaltecer o primeiro termo: professores e desvalorizar o segundo: os funcionários.
Vamos agora dissolver esse platonismo dualista nocivo dessa frase.
- Funcionário é uma pessoa que exerce uma função em determinado ambiente de trabalho. No caso da frase, professor é um funcionário que ensina. O técnico administrativo seria um outro tipo de função que lida com questões burocráticas, não ligadas diretamente à sala de aula. A equipe de apoio e serviços gerais seria um outro tipo de função que mantém o ambiente institucional pronto para ser utilizado nos quesitos de limpezas e outros serviços.
- O propósito de uma universidade de ensino superior é suprir a sociedade com textos com conteúdos científicos e filosóficos, pois é reconhecido que esses conteúdos fornecem uma visão menos distorcida e um pouco mais detalhada da realidade. Portanto, todos os trabalhadores da universidade devem seguir esse propósito. Por isso é preciso um funcionário que ensine e um funcionário que gerencie ou, até um funcionário que exerça atividades mistas de gerência e ensino. E para um funcionamento efetivo, a instituição deve ter funcionários que cuidem da limpeza e outros serviços. Não existe ninguém melhor do que ninguém, são funções interdependentes, trabalhando por um objetivo único de servir a sociedade.
- A frase final seria: “Reservado para funcionários: professores, técnico-administrativos, equipe de apoio e serviços gerais”. Essa última frase dissolve o dualismo e cria uma semente de uma visão monista, na qual as partes só fazem sentido na inter-relação.
Fica a minha outra dica: sempre que detectar essa visão dualista da realidade, procure dissolvê-la o mais rápido possível. Essa visão impede que sejam tomadas decisões de forma que trate o ser humano com respeito, de forma justa.
O terceiro ponto é a importância de ter um mínimo de conhecimento histórico e uma exploração um pouco mais detalhada do objeto de estudo, ou do problema a ser resolvido. Nesse contexto da linguagem, fica fácil entender que, se eu estudo regras gramaticais para uma prova de concurso, se trata da gramática normativa, que apesar de ter sua influência e utilidade, não é a única forma de lidar com a língua. Portanto, eu posso sim estudar para o vestibular, mas isso não me dar o direito de diminuir outra pessoa que não domina 100% daquela norma, que como já vimos, possui muitos pontos em desuso, na nossa vida cotidiana, devido o caráter dinâmico da língua. Portanto, veja a gramática normativa com a intensidade de valor apropriada para ela: como um retrato estático de uma língua que é validada pelo estado como norma a ser seguida em determinados contextos, nem mais que isso, nem menos. Essa explicação não deixa brecha para colocar dualismo que vimos que servem como pano de fundo para preconceitos.
A dica aqui é nunca se contente com respostas superficiais, persista e procure saber o histórico do objeto em observação, procure descobrir a raiz do problema. Sim, isso é cansativo, mas ao mesmo tempo libertador.
Quero fazer um agradecimento especial para Gilberto de Oliveira e Ana Carvalho que contribuíram com discursões que geraram diversos conceitos colocados nesse texto.
Um abraço e até o próximo texto da série: Como tomar decisões.
Para aprofundamento, segue as referências:
ANTUNES, Irandé. Muito além da gramática: por um ensino de línguas sem pedras no caminho. 3. ed. São Paulo: Parábola, 2008.
ANTUNES, Irandé. Aula de Português: encontro e interação. São Paulo, Parábola Editorial, 2003.
BAGNO, Marcos. Preconceito Linguístico: O que é, como se faz. 21. ed. São Paulo: Loyola, 1999.
BAGNO, Marcos. Gramática Pedagógica do Português Brasileiro, São Paulo: Parábola Editorial, 2011.
BAGNO, Marcos; STUBBS, Michael e GAGNÉ, GILLES (orgs.). Língua materna: letramento, variação & ensino. São Paulo: Parábola, 2002, p. 13-84.
BORTONI-RICARDO, Stella Maris. Educação em língua materna: a sociolinguística em sala de aula. 5. reimp. São Paulo: Parábola Editorial, 2004.
OLIVEIRA, Gilberto de. Concepções de Linguagens: algumas descrições. In: SILVA, Francisco Paulo da (org.). Travessias do sentido e outras questões de linguagem. Mossoró: Queima-Bucha, 2008.
SÉRGIO, Ricardo. A primeira gramática: estudos & anotações gramaticais. Disponível em http://www.recantodasletras.com.br/gramatica/2482552. Acessado em Março de 2013.
TRAVAGLIA, Luiz Carlos. Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramática no 1º e 2º graus. 5 ed. São Paulo: Cortez, 2000.