Como tomar decisões (parte 2)

Comportamento

Eu comecei o primeiro texto falando sobre a parte principal: Ações e Reflexões. Nessa parte 2, vou falar mais sobre o item conhecer. O gráfico que mostra o processo de tomada de decisão se encontra na figura abaixo:

Mapa mental sobre como tomar decisões

Se eu pudesse resumir esse post em uma só frase eu diria: precisamos lutar para dissolver a origem da maior parte dos problemas: a ignorância.

Cometemos e repetimos erros, muitas vezes sem saber sequer se estamos errando. Para resolver isso, não existe pílula mágica, não tem caminho fácil. É preciso conhecer, é preciso ter paciência para escavar e descobrir a origem, a natureza e o porquê das coisas. Compreender nosso mundo e suas características:

  • complexo
  • em constante mudança
  • formado por redes sociais e suas regras.

Nos meus posts, sempre que posso, faço traduções de textos históricos de tecnologia: O primeiro robô, o início da era digital e mais recente: Uma breve história da Internet. A motivação maior é o entusiasmo que eu tenho por tecnologia, mas também sei que é extremamente importante esse exercício de aprendizado contínuo e aprofundado. No caso particular desses textos históricos, eu percebi a dificuldade que os profissionais daquela época passavam. Hoje em dia está tudo a um clique de distância, antes não. Tendo essa noção que a minha facilidade de hoje só é possível porque algumas pessoas, no passado, fizeram um trabalho complexo, passei a ter mais humildade e respeito, passei a ter a noção que sou apenas uma “formiguinha” no meio de milhares, que sou integrante de algo mais complexo e tenho que aprender a interagir de forma positiva com esse meio.

Porém, não basta conhecer o que tem ao nosso redor. Precisamos conhecer a nós mesmos, nossas qualidades, características, pontos fracos, nossos limites, nossas habilidades, nosso humor. Acho que essa é a parte mais difícil, nos dias de hoje. Somos levados (pelo menos na nossa cultura ocidental) a observar somente o externo e deixamos nós mesmos de fora dessa busca por conhecer.

Cada pessoa é um indivíduo único, mas vou mostrar algumas características mais universais que temos em comum:

  1. Somos o que repetimos. Com essa frase, eu tenho como prever com certa aproximação como será o meu futuro, porque futuro é uma consequência do que repetimos no presente. Quem vê uma pessoa bem sucedida e acha que foi fácil, não tem noção do esforço e persistência que foi preciso até essa pessoa chegar nesse patamar. Outro caso é o profissional que “empurra serviço com a barriga” e acha que está sendo “esperto”. A frase é bem clara. Esse profissional não tem a menor noção que quando ele repete essas ações medíocres ele está se tornando uma pessoa medíocre e dificilmente saberá superar situações mais complexas, consequentemente vai perdendo oportunidades, ficando a margem, não por culpa dos outros, por culpa de si próprio. Lembre-se bem: um futuro brilhante depende da soma de pequenas ações consistentes no presente. Não estou dizendo para fazer coisas a qualquer preço, se tornar um workaholic, uma pessoa tensa, não, de forma alguma. Só estou dizendo que é preciso ter um comprometimento individual com o aprimoramento contínuo.

  2. Criamos uma imagem parcial e indireta da realidade. Nosso acesso à realidade, aos objetos é de forma indireta e parcial: De acordo com o que vamos conhecendo, graças aos nossos sentidos formamos uma imagem distorcida da realidade e essa imagem nunca será igual a realidade em si, pois não somos seres onicientes. Vamos aprimorando nosso conhecimento aos poucos por experimentações e, de forma indireta, vamos aprimorando a nossa imagem interna que criamos do mundo. Quanto mais aprimorarmos essa imagem interna que fazemos do mundo e de nós mesmo, melhor será a habilidade de tomarmos decisões mais assertivas.

  3. As regras sociais, no geral, são mais fortes que a vontade individual. Sobre esse tema vou falar sobre 3 exemplos:

    • Sempre que você bater de frente com a cultura de uma empresa você perde. Max Gheringer fala muito sobre a necessidade de se adaptar à cultura da empresa. Isso é simples de resolver: se a regra do ambiente é usar calça comprida, a não ser que seja um problema de força maior, não tente entrar no ambiente de bermuda, além de você não ganhar nada com isso, vai ser chamado sua atenção. Bater de frente com a cultura de um ambiente não é a forma mais assertiva de se chegar a um objetivo individual. Se usar bermuda é muito importante para você, procure, aos poucos encontrar um ambiente que seja propício para isso (cultura) e em seguida execute. O ponto aqui não é se anular devido ao ambiente. É saber o que você gosta e procurar um ambiente que aceite isso. Lembrando também que sempre terá algum limite e que os limites são bons para convivermos com um mínimo de civilidade.

    • A sociedade hipervaloriza o lado esquerdo do cérebro (razão). Somos bombardeados e incentivados a exercitar mais o lado cognitivo do cérebro. Claro que é essencial a parte cognitiva, sem ela eu não poderia escrever esse texto. Mas, quando utilizamos de forma excessiva um lado, estamos subutilizando o outro que é o da visão geral, holística, visão do todo. O ponto chave aqui é que tomamos decisões melhores, quando no dia a dia exercitamos nosso cérebro com atividades que utilizem o lado esquerdo e o lado direito do cérebro. Um exemplo é complementar os estudos com algum esporte, ou atividades artísticas em geral. Saiba mais: Post: Desenhando com o lado direito do cérebro. Livro: A Cientista que Curou Seu Próprio Cérebro - Jill Bolte Taylor

    • Tendemos a seguir a opinião da maioria, mesmo sabendo que estão errados. Tendemos a ter essa ação inconsciente de achar que é melhor está errado do lado da maioria do que está certo sozinho. É preciso tomar consciência dessa tendência de comportamento e tomar decisões importantes sempre sabendo o porquê, e que este porquê esteja alinhado com o seu objetivo e personalidade individual. Se, em suas decisões importantes, você se deixa levar por essa tendência, dificilmente conseguirá realizar seus objetivos e viver uma vida com mais entusiasmo. Saiba mais em Efeito Manada

  4. Somos seres racionais, mas também afetivos e nos apegamos fácil. O ponto aqui é tomar consciência das suas emoções e se elas estão contribuindo ou não para que você realize seus objetivos. Não existe receita de bolo para isso. Cada indivíduo é único nesse quesito. Se levarmos somente pelo lado emocional, podemos até está cometendo injustiças sem saber. Por outro lado, se exagerarmos na racionalidade nos tornaremos pessoas secas e eu diria até desumanas. Não podemos nos permitir criar objetivos que nos tornem desumanos, portanto, mesmo sem mapa algum, é preciso procurar o equilíbrio e tomar essa busca pelo equilíbrio como uma responsabilidade individual.

  5. Por ignorância, tendemos a agir com aversão ao que achamos ruim e com apego ao que achamos bom. Voltei agora à primeira frase do texto “A ignorância é a origem de maioria dos problemas”. Existe, como falei, uma interface entre o mundo e a nossa mente, no plano mental eu falei da imagem distorcida que criamos da realidade e que precisamos aprimorá-la continuamente. Mas, no plano bioquímico também temos a outra interface, as sensações. Cada interação dos nossos sentidos com o mundo externo gera uma sensação no nosso corpo, que pode ser boa, ruim ou neutra (tensão, formigamento, dor, frio, calor, etc). A sensação não é permanente: Ela surge, ocorre e se acaba. Essa é a natureza da sensação. Daí começa nossa ignorância, pois começamos a nos apegar às sensações boas e quando esse apego é elevado pode criar uma prisão no nosso corpo que chamamos de vício, no caso de produtos químicos ou compulsividade no caso de ações desregradas para conseguir o que deseja a qualquer preço. Por outro lado, se vivemos em situação de conflito, tendemos a criar aversão ao fato e ao ambiente, essa aversão gera uma sensação de tensão no corpo e isso pode se acumular ao ponto de vivermos em pânico e precisar de acompanhamento especializado. A cura para esse mal é conhecer esse mecanismo e procurar agir com equilíbrio diante da vida. É um processo difícil, mas possível. Temos que sair da escravidão das sensações e viver de acordo com um propósito maior. Não é se anular, mas sim agir de forma equilibrada diante das adversidades da vida. (Mas sobre esse tema no livro: Meditação Vipassana: A arte de viver segundo S. N. Goenka)

  6. Somos seres de hábitos e tendemos a ter dificuldades com a mudança. Mudança é algo inquestionável, inevitável, faz parte da natureza do nosso mundo em constante evolução. É preciso se adaptar às mudanças. Se possível aceite-as como uma forma de aprimorar suas habilidades e sua visão de mundo. Não veja mudança como risco, veja como oportunidade. Pergunte a si próprio o que pode aprender com essa mudança. Apesar de sermos seres de hábitos, podemos e temos a liberdade de escolher e mudar nossos hábitos. Claro que é difícil mudar algo que já foi muito repetido, mas não é impossível. Daí a importância de cultivar bons hábitos desde cedo, maus hábitos são como ervas daninhas que destroem a plantação. Maus hábitos impedem que sejamos pessoas plenamente realizadas. Somos seres de hábitos mas devemos escolher hábitos saldáveis e sustentáveis.

Já falei da importância de compreender o mundo e a si mesmo e procurei diminuir um pouco a complexidade disso tudo. Mas também é preciso que tomemos algumas atitudes que, em minha opinião, podem auxiliar e equilibrar um pouco a convivência do dia a dia e suas resoluções de problemas:

  1. Aprender a conviver com as diferenças. cada pessoa tem uma personalidade única, muitas vezes ela tem uma opinião oposta a minha, mas eu tenho que respeitar e aprender a conviver com opiniões opostas. Opinião oposta não quer dizer que a minha esteja certa só quer dizer que é diferente da minha. Sem essa habilidade de conviver e respeitar as diferenças não chegamos muito longe.

  2. Aprender a dizer NÃO. É impossível agradar a todo mundo. Seu objetivo não pode ser agradar aos outros, nem se sacrificar pelos outros. Se você se sacrifica sem ser em um caso de força maior, você está alimentando a ideia distorcida que que aquelas pessoas são melhores que você e isso traz problema para você e para a pessoa que você se sacrifica, você fica esgotado e a pessoa com maus hábitos, como dependência excessiva, falta de iniciativa, entre outros. Então o “não” é muito útil sim, é preciso colocar limites saudáveis, se você não coloca limites o mundo ao seu redor irá impor a você coisas que você não vai gostar. Nunca transforme não em talvez, o não é necessário, útil e saldável. (Veja mais sobre isso em Os 3 tipos de funcionários. Por Max Gehringer)

  3. Perceber a diferença entre persistência e teimosia. Para saber essa diferença gosto muito de citar a frase de Einstei: “Loucura é esperar resultados diferentes fazendo sempre a mesma coisa”. Quando você perceber que determinada ação não está tendo resultados positivos mude a ação. Quando a sua ação é validada com resultados positivos então você pode persistir (repetir e aprimorar a ação) até conquistar seu objetivo maior. A persistência só deve ser colocada em prática após uma resposta positiva (validação de uma ideia). Outra forma de detectar teimosia é que ela se torna um ciclo, uma prisão, não flui. A ação se torna mecânica e não traz resultados, fuja desse ciclo.

  4. Precisamos aprender a conviver entre os mundos público e privado. Precisamos nos equilibrar entre esses dois mundos que muitas vezes divergem. Mas sempre gosto de lembrar da frase: elogie em público, critique individualmente. Nenhum ser humano gosta de ver seus defeitos em uma seção de debate, isso complica e muitas vezes torna insuportável o relacionamento. No caso do item aprender a dizer não, procure na medida do possível dizer o não em particular e individualmente. Um não em público é pesado, mas cada caso é um caso.

Esse texto foi possível em parte a partir de minha experiência e também por pesquisas de livros e diversas pessoas que tem um ponto em comum: questionam o status quo. Uma coisa que descobri é que não é possível o aprimoramento fazendo sempre o que a maioria diz ser o certo a fazer. É preciso questionar ideias enlatadas. Não é possível evoluir e tomar boas decisões continuamente com ideias enlatadas. Por isso fica a dica: crie uma lista de pessoas que questionam o status quo e se inspire nessas pessoas, até que você possa seguir o seu próprio caminho.

Acredito que cada ser humano nasceu para brilhar, usar suas vocações de forma plena e harmônica. Tudo que falei nesse texto tem o objetivo de contribuir para que se gere uma visão mais madura do mundo, da sociedade, de si próprio. Essa visão madura, eu acredito que nos capacita a tomar decisões mais assertivas, flexíveis e em minha opinião mais humanas.

Um abraço e até o próximo texto da série como tomar decisões.